A Internet matou a Taís?
Esta semana termina mais uma daquelas novelas que leva milhões de telespectadores a aguardar com grandes expectativas o seu desfecho final, diante de aparelhos de TV. Até quem não assiste à novela “Paraíso Tropical” deve estar sabendo que uma das perguntas mais feitas nos últimos dias foi “Quem matou Taís?”.
Tramas de mistério não são uma novidade na TV brasileira. “Quem matou a Odete Roitmann?” é o que o país se perguntava em 1988, durante a exibição de “Vale Tudo”. Mais que isso, há trinta anos, o mistério da morte de Salomão Hayala notabilizou a novela “O Astro”.
Faço esta referência relacionada a uma peculiaridade da televisão brasileira porque acontece nestes primeiros dias de outubro em Florianópolis o principal evento realizado no setor de Telecomunicações e Tecnologia da Informação da América Latina, o Futurecom. É uma ótima oportunidade para pensar sobre o futuro da televisão e seu modelo de negócio com a convergência de tecnologias. Afinal, a televisão como sempre conhecemos está passando por uma transformação.
Eu pergunto: será que num futuro próximo ainda teremos multidões grudadas em frente a aparelhos de TV, no mesmo horário, acompanhando um mesmo programa, com intervalos comerciais?
Como se comportará o público diante do uso da internet com as tecnologias de IPTV?
Um novo modelo de mercados de nicho e personalizados capaz de levar um milhão de programas para cada pessoa vem mudando a televisão como negócio. Ele não elimina a comunicação de massa, mas ambos modelos irão conviver, compartilhando tempo e atenção do telespectador. Na TV tradicional, temos poucos canais, as receitas vêem de propaganda e são concentradas nos horários nobres.
No mundo digital, não existirão restrições de canais. Não existirão limites para produção de conteúdo: toda a sociedade, em princípio, poderá gerar um. A popularidade dos sites como a do YouTube e MySpace são exemplos reais desta transformação. Curiosamente, a mudança é proporcional ao crescimento do uso de câmeras de vídeos para uso doméstico.
Neste mercado de nichos pode deixar de existir os campeões de audiência. Hoje, temos de assistir ao programa no horário escolhido pela rede e propagandas pré-determinadas. Com o advento da IPTV, e tecnologias como o DVR (Digital Video Recorder), TIVO, etc, acabamos com o componente tempo e podemos assistir ao programa quando quisermos. Podemos criar nossos próprios “canais virtuais”, selecionando de forma automática os programas que queremos assistir.
Por outro lado, com a IPTV e a TV Digital, onde a propaganda está altamente focada e interativa, é possível colocar os comerciais durante a programação e estimular o consumidor a comprar produtos que estão inseridos na programação com o apertar de um botão. Esta tendência representa uma grande oportunidade para a indústria de Telecom, principalmente para as operadoras móveis. Em setembro de 2006 a EMI Music e a T-Mobile juntaram esforços para um projeto piloto na Inglaterra com uma oferta para vídeo no celular com comerciais embutidos no pacote que tornam mais barato (até mesmo de graça) o preço do filme desejado.
Essa convergência se confirma em dados de uma pesquisa de opinião do IBM Institute for Business Value feita em 2,4 domicílios dos EUA, Reino Unido, Alemanha, Japão e Austrália, entre os meses de abril e junho de 2007. A consulta sobre os hábitos dos consumidores de mídia e entretenimento mostra ainda que o tempo gasto à navegação na internet está competindo francamente com o tempo dedicado à audiência diante da TV.
Entre os entrevistados, uma maior porcentagem se considerou usuária “maciça” da internet em vez de espectadora de TV: 19% afirmaram que passam seis horas ou mais por dia usando a web para interesses pessoais, contra 9% dos entrevistados que informaram assistir à TV durante este mesmo tempo. Uma média de 83% dos consumidores pesquisados no mundo todo afirmou ter assistido ou querer assistir vídeos no computador, e uma média de 43% disse ter assistido ou querer assistir vídeos no celular.
São tópicos como estes que quero ver em discussão no Futurecom. Tal qual um fã de novela assistindo ao capítulo final da trama, acompanharei o evento como muita atenção na expectativa pelas próximas cenas desta história das convergências.
Fonte: Baguete
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