Jornalista, produtor, pesquisador, diretor de cinema (prepara para 2008 um filme sobre Abelardo Barbosa, o Chacrinha), Nelson Hoineff passou pelas grandes emissoras de TV do país. Atualmente, dirige o Instituto de Estudos de Televisão - IETV. Em entrevista ao Caderno 3, ele fala sobre a expectativa quanto à TV digital e à nova TV pública no Brasil. Confira:
A menos de um mês para a implantação da TV digital e da nova TV pública, como você avalia esse momento da televisão brasileira? Foram feitas ressalvas quanto à escolha do padrão japonês de TV digital e quanto à criação da TV pública por medida provisória…
É um grande momento, por essas duas razões. Dia 2 de dezembro temos o lançamento da TV pública e da TV digital também. A TV está sofrendo profundas transformações, e o IETV está muito atento a isso. Temos feito uma quantidade muito grande de encontros, além do grupo permanente sobre construção de conteúdo pra TV Digital. Também somos parte do Conselho Consultivo do Sistema Brasileiro de TV Digital. A escolha do padrão japonês pra TV digital, a meu ver, foi completamente acertada, porque ele permite transmissões móveis, sem passar por telefonia, e é um modelo avançadíssimo. Já a criação de uma TV pública que possa atender aos anseios da sociedade brasileira, em relação a uma TV de qualidade, é uma coisa muito boa. Se isso vem por medida provisória, ou não, não me cabe comentar. Participei de dezenas de debates sobre isso. Se é como o ministro Franklin Martins garantiu, com um modelo de gestão da TV pública com pouquíssima interferência do Estado, acho uma coisa muito boa. É bom que tenhamos uma TV pública forte, de qualidade.
Como ficam as experiências anteriores de TV não-comercial, como a Cultura e a TVE do Rio?
Há várias experiências boas de TV Pública, como essas que você falou, e outras nem tão boas. O que se está querendo criar agora, pelo que percebo, é uma TV pública mais abrangente, que vai estar absorvendo a TVE, a Radiobrás… Acho que quando se investe com sabedoria, pode-se fazer uma TV pública de muita qualidade. Torço muito pra que isso aconteça. Não tô dizendo que vai acontecer, porque não tô lá dentro, mas vejo a possibilidade que a gente possa criar um televisão pública forte e competitiva no Brasil, uma TV de alto nível. Espero que seja voltada para uma programação de qualidade, para a diversidade da cultura brasileira, em um nível competitivo, ou seja, não pra pequenos nichos, mas pra várias camadas da sociedade e que ao mesmo tempo imponha padrões de qualidade dentro da TV brasileira, carente de pesquisa, experimentação. E que tenha um jornalismo isento.
Também houve críticas de alguns setores à indicação de Teresa Cruvinel, uma jornalista de batente em um grande jornal diário, pra direção da TV pública…
Eu não quero falar de nomes. A Teresa é uma pessoa que eu conheço muito pouco, estive com ela uma vez só na vida. Mas leio os textos dela, acho uma boa pessoa. E vejo ali na direção executiva da TV nomes como Orlando Senna, que conheço há muitos anos e teve um desempenho extraordinário na Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. O Leopoldo Nunes, que trabalhou comigo e estava na Ancine. Vejo bons nomes na direção.
As TVs comerciais temem, de algum modo, o impacto dessa nova TV pública?
Não, acredito que não . Quando uma televisão nova é boa, isso beneficia todas as TVs. E acredito na boa fé das emissoras comerciais. Acho que ninguém acorda de manhã com o propósito de emburrecer o público. Agora, a TV em geral é muito limitada, segue o mesmo padrão. À medida que existir uma rede de TV de qualidade, em vez de assustar, pode contribuir com as outras.
Recentemente a revista Carta Capital deu capa para uma matéria apontando que a Globo estaria tendo dificuldades, com maior concorrência…
Também não tô dentro da Globo, mas não vejo dessa forma não. Acho muito bom que haja uma competição sendo estimulada. A Globo é uma rede comercial de televisão muitíssimo boa. Acho que a Record tá tendo um grande avanço, o SBT tá cheio de problemas, mas é uma rede bastante boa. A Bandeirantes tem tido conquistas no jornalismo muitíssimo boas. O que acontece é que estamos acostumados, no Brasil, à falta de competitividade na televisão. Quando essa competitividade aumenta um pouco, a gente se assusta, mas isso não é negativo. É muito bom que no Brasil a gente tenha duas ou três televisões competindo.
A TV digital trará uma programação mais plural, ou mais canais gravitando em torno das principais emissoras, como ´Globo 1´, ´Globo 2´…?
A multiprogramação dessa forma não vai existir nas emissoras comerciais, por duas razões. Primeiro porque elas escolheram usar todo o espectro pro HDTV (TV de alta definição). Segundo porque o governo sinalizou que não seria uma coisa desejável, dentro das emissoras comerciais. Você vai ter multiprogramação pras emissoras públicas, isso vai ser bom, vai aumentar as possibilidades. A gente, dentro do IETV, montou um grupo de estudos que hoje tem 20 e poucos pesquisadores, trabalhando em termos de modelos de conteúdo pra plataforma digital. Na tentativa de elaboração de modelos de conteúdo que levem em consideração aplicações alternativas. E lançamos um prêmio às melhores monografias que digam respeito à construção de conteúdo para TV digital. Estamos fazendo um esforço para juntar todo mundo que tá pesquisando isso no Brasil, fazendo a nossa parte, também com o Encontro Internacional de Televisão, no último dia do festival. Acreditamos que temos uma possibilidade muito grande de afastar a mesmice. As plataformas digitais podem colaborar muito pra melhoria da TV, não somente de qualidade de imagem e som, mas de trazer novos paradigmas.
Com o preço alto esperado para o ´set top box´ (receptor do sinal digital) e as TVs com HDTV, em quanto tempo a TV digital vai, de fato, ser acessível às pessoas?
Esse é um processo dinâmico, como toda nova tecnologia. Cada coisa vai vir a seu tempo, o HDTV, a multiprogramação, a mobilidade, a interatividade… O custo dos equipamentos começa lá em cima e depois cai, como em toda mudança tecnológica. Acho que serão uns dois anos pra cada coisa. Minha previsão é que em dois anos seja generalizada a TV em receptores móveis, celulares ou outros receptores. Isso muda a TV por completo, subverte a idéia de horário nobre. Agora, cada uma dessas aplicações vem a seu tempo.
Pra concluir, o que o público de Fortaleza pode esperar da Mostra Panorama da TV Mundial?
Uma amostra do que é a diversificação da produção de TV em vários países. O telespectador de modo geral é levado a acreditar que TV se produz em três ou quatro grandes centros. Não é verdade. A TV se produz no mundo inteiro, e reflete o local onde ela está. É como um pássaro dentro da gaiola, ele não sabe a extensão do mundo, até que se abra a janela da gaiola. O telespectador brasileiro é um pouco isso, um pássaro dentro da gaiola. As medições de audiência não dizem o que ele gostaria de ver, e sim o que ele viu, dentro de três ou quatro escolhas que lhe foram dadas. O que o IETV tenta fazer é abrir um pouco a gaiola do espectador, mostrar que há muito mais pra se ver.
DALWTON MOURA
Repórter
Fonte: DiariodoNordeste