Published January 30th, 2008
EUA leiloam banda larga via rádio
Desde a última quinta-feira está em curso nos EUA o leilão da faixa dos 700MHz de freqüência. Até 2009, as ondas de rádio neste espectro continuarão a ser usadas por quem sempre as usou: emissoras de televisão de UHF. Mas, aí, entra no ar a TV Digital. Como as emissoras precisarão de menos espaço do que ocupam hoje, muito ficará vago.
O leilão dura vários dias e é secreto. Antes de haver comprador claro para cada uma das bandas nas quais a faixa foi dividida, não saberemos o resultado. É a chamada Banda C que desperta maior curiosidade. Todo mundo quer saber se o Google vai conseguir comprá-la.
Se até agora esta coluna pareceu grego, que ninguém se acanhe: o assunto é a possibilidade de uma internet banda larga via rádio. Como um Wi-Fi por toda parte.
Celulares ocupam a faixa logo após os 700 MHz – entre 800 e 1.900 MHz. Ondas de rádio têm a seguinte característica: quanto mais baixa a freqüência, mais longe elas chegam e com maior facilidade atravessam obstáculos como paredes e portas.
Se seu celular pega mal na casa de campo é porque está muito longe de uma antena; se a ligação cai tão logo você entra no elevador, ou quando está dentro do escritório, é porque as paredes são espessas. Mas acaso a telefonia celular ocupasse o espectro mais baixo e mais nobre por onde passam as ondas de tevê, esses problemas não seriam tão comuns.
E é justamente isso que está acontecendo nos EUA. A conversão total para a TV Digital será cara. Afinal, não coexistirá mais, como acontece hoje no Brasil, com a tevê analógica. Todos deverão de ter uma caixinha de conversão ligada ao aparelho. O que o governo pretende é pegar a fortuna arrecadada nesse leilão de banda para subsidiar a venda dos conversores.
A mudança, não custa lembrar, será menos traumática do que a que chegará ao Brasil no momento em que a digitalização total chegar. Nos EUA, quase 60% das casas recebem televisão a cabo. Aqueles assinantes já têm acesso à televisão aberta digital, pelas caixinhas da tevê paga.
O leilão não faz muitas exigências a respeito de quais os usos a que devem ser destinadas as bandas vendidas. Uns propõem o uso de aplicativos pesados via celular; outros, de banda larga via rádio para assinantes.
O uso, aqui, não é uma questão trivial. A internet é como é porque se trata de uma rede aberta, maleável, na qual vários tipos de aplicações podem ser implementadas. Quem inventou a internet não imaginava que haveria um dia a web na qual gastamos tantas horas de nossos dias. Mas aquilo que os pais da rede criaram permitiu a Tim Berners-Lee que inventasse nela a web. Se os compradores das bandas dos 700 MHz, nos EUA, decidirem construir uma rede fechada com um protocolo utilizável apenas por aparelhos de determinada marca, o consumidor terá um problema.
Daí que é bom torcer para que o vencedor do leilão seja o Google. Desde que o leilão foi anunciado, a empresa de busca vem defendendo que o governo imponha a implementação de uma rede maleável, aberta. O governo optou por fazer ouvidos moucos, como tem sido de praxe na administração George W. Bush. Não há tempo para esperar o próximo presidente. O jeito é torcer pelo Google.
O melhor seria uma ligação à internet. É a banda larga que não vem pela linha telefônica, pelo cabo de tevê ou pelo satélite. Internet via rádio. O cliente paga a uma empresa como paga à operadora de celular e capta a rede com login e senha em seu aparelho de telefone, geladeira, notebook, palm, toca-MP3 e seja lá mais o que for, não importa.
Banda larga pelo rádio quer dizer ligações sempre locais via Skype, por exemplo. Ou um notebook eternamente online, não importa em que sala do prédio ou em que cidade. É um iPod que pode comprar a música que seu dono quer ouvir instantaneamente. Internet em toda parte é outra concepção. É, assim, uma Pasárgada digital.
*pedro.doria@grupoestado.com.br
Fonte: Estadao
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