Web 2.0 é desafio para CIOS
Colaboração: ninguém fala de outra coisa no Vale do Silício. Multiplicam-se as startups concentradas apenas no desenvolvimento de aplicações interativas, onde o usuário toma decisões e de fato cria produtos. A tal ponto que, no último JavaOne, em maio, em São Francisco, a Sun Microsystems realizou, pelo segundo ano consecutivo, dois eventos especiais para esse mercado, o StartUp Camp e o CommunityOne.
Dentro das corporações, por outro lado, multiplicam-se as aplicações interativas internas – não há CEO que se preze e que já não tenha um blog diário, excelente substituto para os impessoais press-releases, e, em vez de intermináveis reuniões e telefonemas, proliferam as mensagens instantâneas – as IMs – e os documentos produzidos coletivamente por meio do wiki.
Tudo isso constitui o que Tim O’Reilly – da O’Reilly Media, que publica livros por e para nerds – definiu, em 2005, como a segunda fase do desenvolvimento da web, uma idéia que acabou se materializando na agora badaladíssima conferência Web 2.0, promovida justamente pela O’Reilly.
A expressão não designa nenhuma revolução técnica na estrutura da rede, mas sim a evolução natural para um tipo de uso diferente da web, onde o usuário não apenas consulta o conteúdo disponível, mas também produz conteúdo, colabora, participa, inventa (ver box). Dessa idéia surgiram os blogs corporativos e os álbuns de família on-line, daí veio o YouTube, a Wikipedia ou o Orkut.
Um caso concreto de aplicação intensiva de recursos de Web 2.0 em um ambiente corporativo é o da Sun, como relata Juan Carlos Soto, o vice-presidente de marketing da empresa. “Constatamos que a maior parte das aplicações Web 2.0 não são criadas ou gerenciadas pelo nosso departamento de TI”, diz ele. “Elas brotam por toda parte e não são necessariamente controladas.”
Ele pondera, no entanto, que o CIO precisa pensar no assunto e planejar para as implicações financeiras e – o mais importante – considerar a política empresarial. “As tecnologias Web 2.0”, explica Soto, “ensejam uma mudança de cultura e a empresa pode querer instituir diretrizes às quais os funcionários devam aderir.” Ele enumera algumas considerações importantes: segurança para o acesso crescente a uma mídia diversificada (dando acesso a certas pessoas e impedindo o de outras); demanda crescente de largura de banda; uso crescente de dispositivos móveis; diretrizes de confidencialidade, etc.
O exemplo mais remoto desse tipo de colaboração interativa, propiciando um fluxo de informação muito melhor, ocorreu no centro de pesquisa e desenvolvimento da Xerox em Palo Alto, na Califórnia, conhecido como Xerox-PARC.
Há mais de 20 anos, na cafeteria do PARC, que era também freqüentada por mecânicos especializados no conserto e manutenção de fotocopiadoras Xerox na região, os pesquisadores notaram, em conversas informais com os mecânicos, que estes sabiam coisas que não estavam nos manuais de manutenção das máquinas.
Pensaram, então, em criar uma aplicação para captar esse conhecimento espalhado pelas cabeças dos mecânicos – e, como a diretoria não aprovou a idéia, alegando que tudo já estava nos manuais – criaram um projeto “secreto” baseado em PCs: uma rede de informações, onde os mecânicos introduziam diariamente novas informações baseadas nas suas experiências reais com as máquinas. O projeto acabou se tornando oficial e um piloto foi implementado na França. Resultado: o uptime das máquinas Xerox melhorou substancialmente.
Quem recorda a história como paradigmática, “um exemplo clássico de colaboração”, é Wolfgang Kandek, vice-presidente de engenharia e operações da Qualys, uma empresa do Vale que desenvolveu uma ferramenta para segurança de dados. Para ele, cujo trabalho requer um envolvimento com os problemas de segurança das grandes corporações, suas clientes, a Web 2.0 é inevitável – e por isso mesmo apresenta uma série de desafios para o CIO.
“O CIO é tipicamente um controlador e qualquer ferramenta que dê liberdade ao usuário tira-lhe o sono”, diz Kandek, que enumera três problemas fundamentais com os quais o CIO deve se preocupar devido à Web 2.0: a falta de controle, a Segurança da Informação proprietária ou confidencial e a vulnerabilidade adicional a ataques de vírus e outros problemas de segurança.
No primeiro caso, o problema é que todo mundo faz IM, wiki e blogs sem o CIO saber – se, e somente se, ele não tiver uma solução para o problema. A resposta pode ser de dois tipos: a primeira é simplesmente proibir o uso de ferramentas de Web 2.0; a segunda é tomar a iniciativa e abraçar a idéia.
Se escolher a proibição, o barato pode sair caro, porque a empresa perderá em competitividade ao deixar de usar ferramentas que propiciam um aumento significativo de produtividade. Mas o CIO pode resolver o problema da falta de padrão e de controle ao criar, por exemplo, um IM corporativo ou comprar um no mercado. Dois deles são o projeto Groove, desenvolvido por Ray Ozzie, que anos atrás criou o Lotus, e recentemente comprado pela Microsoft; ou o SameTime, da Lotus. “É sempre melhor que o usuário use ferramentas que o CIO testou antes”, explica Kandek.
O segundo problema do CIO é a Segurança da Informação proprietária, que pode circular em mensagens instantâneas ou em páginas wiki sem encriptação. Já existem aplicações que monitoram esse tipo de comunicação ou juntam pacotes de rede para uma conversa IM, por exemplo, encriptando a comunicação ou detectando e bloqueando informações sensíveis. Tablus e Recomix fabricam máquinas que decodificam o material encriptado e essa operação é transparente para o usuário. “A maior parte das empresas já têm proxies na conexão Internet que vetam, por exemplo, o acesso a páginas pornográficas”, diz Kandek. “O mesmo princípio pode ser aplicado à IM ou às páginas wiki.”
O terceiro problema é que essas ferramentas Web 2.0 constituem um novo vetor para ataques de vírus e outras brechas de segurança. “Já existem ferramentas antivírus nas máquinas corporativas, mas será que elas também detectam vírus em páginas wiki ou IMs?”, pergunta Kandek. Ele lembra o caso recente do website dos Miami Dolphins, um time de futebol americano da Flórida, infectado por um vírus que instalava um key-stroke blogger no computador de cada usuário que acessasse o site. “Se conseguem fazer isso num website, que não é feito para ser editado, que dirá em uma página wiki, que é votada edição?”
Sim, há riscos e problemas. Mas os ganhos em fluxo de informação e produtividade são importantes que, ao evitá-los, reduz-se a competitividade da empresa. É como a democracia: complicado, caótico, aparentemente fora de controle - mas ninguém inventou nada melhor.
Fonte: Decision reporte
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