A União Europeia enfrenta cinco novos desafios em termos de e-Government, entre os quais apostar na liderança das novas gerações de redes de banda larga e desenvolver serviços personalizados, disse à Lusa o ex-gestor da UMIC - Agência para o Conhecimento.
Diogo Vasconcelos falava à agência Lusa a propósito da conferência sobre e-Government (Governo Electrónico), que se realiza em Lisboa a 19 e 20 de Setembro.
Numa primeira fase, de acordo com o director da Cisco Systems para a área do sector público e antigo gestor da UMIC, o e-Government resultou na disponibilização na Internet dos serviços públicos, mas actualmente o conceito é muito mais largado e os desafios são maiores.
«Ao falarmos da transformação do sector público, devemos abandonar a ideia de e-Government como o mero tornar electrónicos os serviços públicos», afirmou Diogo Vasconcelos.
«O novo desafio é explorar novas formas de juntar conhecimento, recursos dispersos provenientes do sector privado, do sector social e do sector público para dar resposta a desafios de serviço público. Mais que e-Government deveremos falar de Connected Government [Governo Ligado]», afirmou.
Segundo Diogo Vasconcelos, os cidadãos europeus passaram de meros consumidores a intervenientes, com poder de criar conteúdos na Internet.
Perante esta tendência - de consumidores passivos a interventivos -, «abre-se espaço para mudar o tipo e a natureza das organizações envolvidas na distribuição de serviços públicos e para explorar serviços mais personalizados e, em alguns casos, produzidos com os cidadãos que deles precisam», sublinhou o responsável.
Garantir o acesso à Internet de alta velocidade a todos os cidadãos europeus e apostar na liderança da nova geração de redes de banda larga são outros dois desafios apontados por Diogo Vasconcelos para a União Europeia.
Actualmente, quase um terço (30 por cento) dos cidadãos europeus não têm acesso ao e-Government, segundo o responsável, que disse que a solução passa pela banda larga disponível a todos, em qualquer lugar.
«A Europa só poderá concretizar o desígnio da Estratégia de Lisboa se conseguir incluir todos os cidadãos nesta dinâmica de acesso e valorização do conhecimento», afirmou o antigo responsável da UMIC.
«O acesso à informação e ao conhecimento é o factor estrutural fundamental para o crescimento económico, aumento da produtividade e coesão social. A banda larga pode ser vista como a nova infra-estrutura do século XXI, comparável à água, caminhos-de-ferro ou estradas», explicou, sublinhando que a «a nova geração de banda larga é a plataforma para uma nova forma de funcionamento do sector público: pôr as pessoas e as comunidades no centro de redes de conhecimento, inovação, serviço, confiança e criatividade».
Por isso, Diogo Vasconcelos defendeu que «urge criar na Europa um clima favorável ao investimento nas redes de nova geração, em ambiente concorrencial».
«Projectos de fibre-to-the-home [fibra óptica até casa] teriam um forte impacto no fomento da inovação e da competitividade europeias», considerou o consultor da Cisco Systems.
Outro dos desafios passa pela União Europeia assumir «o paradigma da colaboração e orquestração», ou seja, a participação de entidades e cidadãos de variadas áreas, mas como uma visão comum.
«Os governos europeus têm de apanhar a transição de um mundo antigo, hierárquico e rígido, em que a lógica era a do tradicional »comando e controlo«, para um mundo novo, de colaboração e orquestração de pessoas e de comunidades, evidenciado na revolução web 2.0 [ligação em rede]», adiantou.
«Ligar pessoas, ideias e organizações em novas formas de colaboração e comunicação: eis um grande desafio para a administração pública em toda a Europa», acrescentou.
O quinto desafio, e nem por isso o menos importante, é o de avançar com uma ideia mobilizadora, com impacto directo na vida dos Europeus.
«Uma das iniciativas mais interessantes e promissoras de e-Gov que tenho acompanhado de perto está a arrancar na Alemanha. Trata-se da Germany 115, a criação de um número telefónico para todos os serviços públicos alemães, nacionais, regionais e locais. Este novo canal de atendimento, acessível a qualquer pessoa, vai implicar profundas mudanças no sector público, exigir uma enorme capacidade de simplificação de procedimentos, de colaboração e de coordenação», diz.
Este serviço, segundo o responsável, deveria ser replicado em cada um dos Estados-membros.
«Uma iniciativa deste tipo teria grande impacto, pela sua utilidade, na vida dos europeus. E teria um fortíssimo efeito mobilizador, de milhares de agentes de mudança do sector público, em todos os países da União Europeia», considerou o responsável.
«Pelo seu simbolismo, relevância e impacto, este serviço integrado estaria para o e-Gov como o euro está para o mercado único ou como o Erasmus está para a mobilidade estudantil. Precisamos de mais Europa em matéria de e-Gov», rematou.
Fonte: SAPO PT